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PSOL: qual o lugar da militância?


                                                              Partido significa tomar parte.

                                                              Quando você não toma parte, perde

                                                              toda a significação.

                                                                   Chico de Oliveira


Uma conquista significativa para o PSOL, e para a política no Brasil, foi a campanha de Marcelo Freixo à prefeitura do Rio de Janeiro. Durante meses, milhares de pessoas estiveram mobilizadas em torno da discussão sobre o projeto que queremos para o Rio, o conceito de cidade e de cidadania.

O legado dessa campanha permanece. Ela nos ensinou que é possível fazer política, partidária inclusive, de forma participativa, ética, sem alianças espúrias ou financiamentos suspeitos.  O resultado foi uma vitória política com poucos precedentes.  As dezenas de comitês, muitos abertos espontaneamente, se tornaram grupos de discussão sobre a cidade, que continuarão seus debates. Essa foi uma das deliberações da plenária convocada por Freixo, logo após a eleição, em que compareceram cerca de seiscentas pessoas.

Parte da trajetória da campanha está registrada nesse Tumblr.  O primeiro post,  “Luz do Sol”,  buscou registrar o percurso que ressignificou a história política recente. Foi publicado no blog do Freixo e na Revista Fórum, no blog do professor Idelber Avelar.

A carinhosa nota do Avelar também traduz o significado desse processo: “Fui convidado por Vera Rodrigues a dar uma declaração de apoio à candidatura de Marcelo Freixo logo depois de ter lido este texto escrito por ela e já publicado em seu Tumblr. Senti que não tinha nada a acrescentar a ele e pedi a Vera, então, a permissão para republicá-lo aqui e subscrevê-lo integralmente. Vera gentilmente acedeu ao meu convite. Esta republicação fica como meu tributo a uma das mais belas, inspiradoras e difíceis campanhas eleitorais dos últimos anos no Brasil.” 

Os dois posts seguintes desse tumblr referem-se ao Comício do Freixo na Lapa, e à resposta a um artigo do jornalista Janio de Freitas, na Folha de São Paulo, nessa ordem.

Volto ao tema nesse momento, porque me parece pertinente para uma avaliação dos contrastes e contradições do PSOL, após uma campanha como a do Freixo, que resultou em quase um milhão de votos e numa oposição tão consistente quanto representativa, no Rio de Janeiro. E também após o PSOL ter sido eleito para prefeitura de uma capital: Macapá.

A discussão sobre as conquistas e os entraves dessa eleição no Rio ainda acontecia nas redes sociais e na plenária promovida por Freixo, quando houve a notícia que surpreendeu quase toda a militância: para o segundo turno, no Amapá, o atual prefeito Clécio Luís se aliava ao DEM e ao PTB, entre outros partidos, com apoio do Senador Randolfe Rodrigues.  De Belém, chegavam fotos do candidato a prefeito Edmilson, com Dilma e Lula, e apoio do PT.

A mesma militância que teve plena liberdade de expressão e criação nas campanhas do PSOL no Rio em particular, e no Brasil, em geral, começou a manifestar nas redes surpresa e indignação.

Durante as campanhas, sobretudo no Rio, a militância foi ouvida. O programa de governo foi construído com a participação de vários grupos sociais. Sugestões foram incorporadas.  Muitas ações da campanha ocorreram por iniciativa da militância, que se percebeu como coautora de todo o processo. Daí a vitória política no Rio, que não se encerra na eleição.

Contudo, as divergências dessa mesma militância em relação às alianças e aos rumos escolhidos pelos candidatos do PSOL no Amapá e em Belém, não tiveram a mesma receptividade. Ao contrário, ficaram sem eco, sem interlocução, com raras e louváveis exceções.

Num primeiro momento, houve a tentativa, por parte de alguns integrantes do diretório nacional, de afirmar que “não existiam alianças, mas sim apoios”.  Porém, um vídeo com o Senador Randolfe Rodrigues, amplamente divulgado na internet, desmentiu essa versão: em 39 segundos, ele repetiu cinco vezes a palavra aliança, enaltecendo a importância do DEM, para governar.

Nessa ocasião, a resposta mais comum de dirigentes do PSOL era: “vamos deixar para discutir esse assunto na reunião do diretório nacional”. Reunião em que, como se sabe, há pouca ou nenhuma participação da militância a que me refiro.

As criticas foram contundentes. Para ilustrá-las, reproduzirei algumas, escritas no facebook do Milton Temer, -em quem votei para senador no penúltimo pleito -, que nesse episódio adotou postura contemporizadora. Temer é um dos dirigentes do PSOL.

João Pedro Accioly Teixeira: “O Amapá é a liquidação do PSOL. Sem nenhum sectarismo, é a degeneração da própria esquerda”.

Maria Inês Nascimento: “Como se derrota o capital fazendo aliança com seus representantes?”

Marcello Bertolo: “A maneira como Randolfe e Clécio construíram suas alianças no segundo turno, sem debater com o conjunto do partido, trouxe profundo e grave constrangimento para a militância.”

Diego Rodrigues: “Contraditoriamente, a primeira capital anunciada como dirigida pelo PSOL não tem a política que é amplamente majoritária entre os militantes do PSOL. Repudiamos esses partidos e repudiamos qualquer tipo de parceria com eles. O que deve ser feito deve ser discutido publicamente. Os debates devem ser públicos.”

Há vários outros comentários nessa mesma direção.

Ou seja, a militância é informada, por meio de jornais e das redes, que parte do PSOL contradizia seu próprio estatuto, além dos ideais que justificaram o engajamento das pessoas nas campanhas eleitorais e na construção do partido.  Expressou sua discordância e repúdio às alianças em si e à ausência de debate.

Quem milita nas redes sociais conhece a importância da consistência de argumentação com adversários em particular, e com usuários das redes, em geral. Talvez, por essa razão, lê-se a manifestação de “profundo e grave constrangimento à militância”.  Isso não é pouco.

Os riscos de uma semelhança com o PT são também temas recorrentes nos comentários. Mais do que simplesmente negá-los, convém tentar entender porque eles são apontados. Lembre-se que o PT mantém um discurso de esquerda, enquanto se alia à direita e adota a “realpolitik” como norte e prática.

Alguns dias após esse debate, no período que antecedeu a reunião do diretório nacional, o Senador Randolfe escreveu uma carta ao partido. Afirmou que recebeu “apoio do DEM”, mas que “ partidos conservadores não terão participação na composição do futuro governo de unidade popular”. Admitiu que “a engenharia política pudesse ter sido mais bem construída internamente ao partido, dialogando com instâncias nacionais e ouvindo ponderações”. Atribuiu essa ausência de diálogo à “empolgação pelos apoios recebidos”.

Sabe-se que o contexto político do Amapá inclui o crime organizado, que a luta é árdua, nada fácil, muito menos tranquila. Ocorre que este é um contexto de muitas cidades brasileiras, com diferentes nuances.

Novamente, a militância se manifestou nas redes sociais. Os comentários seguintes também foram copiados da página do facebook do Milton Temer, que divulgou a carta classificando-a como um “documento corajoso, compromisso de um governo de “unidade popular”.

Alidio da Luz: “ter consciência partidária é desrespeitar as instâncias e depois escrever carta dizendo que ‘tava empolgado’?”

Diego Rodrigues: “Não foi um apoio do DEM, mas aliança para governar com o candidato do partido”.

André Ferrarri: “Um cidadão que carrega o nome do PSOL sobe numa tribuna e anuncia uma aliança e governo em conjunto com o DEM, PTB e o resto da quadrilha. Fere até as resoluções propostas por sua própria corrente e aprovadas na direção do partido. Coloca esse povo no programa de TV do PSOL. Repete comportamento vergonhoso adotado em 2010, quando coordenou a campanha no segundo turno do PTB! (…) Randolfe não falou em meu nome e em nome do partido e, se depender de mim, não falará.”

O tom efusivo desses discursos é o mesmo utilizado durante as campanhas eleitorais, mas ali não era rechaçado. O que a militância assinala é a contradição entre o que o partido propôs desde a sua fundação e as práticas políticas dissonantes do discurso, sobretudo no Amapá e em Belém. O Amapá ficou mais em evidência, pelo fato de Clécio Luis ter sido eleito, em Macapá.

Esses comentários foram extraídos da página do Milton Temer porque ele é um dos que claramente manifestam posição de apoio às alianças que a militância critica.  Além disso, pode-se não concordar com as posições de Temer, mas ele as expõe publicamente nas redes, o que é saudável para o debate já que, no mínimo, o enseja.

Além da discussão nas redes, pelo menos uma carta assinada por vários militantes foi remetida aos dirigentes do PSOL, com teor equivalente ao das críticas aqui relatadas.

No tuíter, as manifestações não foram diferentes. Mais concisas, porque escritas em cento e quarenta caracteres, porém não menos enfáticas.

A reação do senador Randolfe foi bloquear boa parte da militância que o criticava. Uma das pessoas bloqueadas, por exemplo, foi o professor de direito Saulo Salvador, que defende sua dissertação de Mestrado na Universidade de Lisboa e, de lá, participou da campanha do Freixo, via redes sociais. Esse exemplo é significativo, pois os tuites do professor Saulo continham argumentação semelhante às relatadas aqui.

O bloqueio também merece destaque pelo seu sentido simbólico, já que explicita a tentativa de impedir que posições divergentes sejam expressas. A militância assim entendida passa a ser algo que incomoda, atrapalha. Opta-se por não ler questionamentos. A atitude teve efeito oposto ao pretendido. As críticas se multiplicaram, também pela tentativa de obliterá-las.

Alguns tuítes do senador Randolfe, e do próprio Milton Temer ilustram o que se tornou público na relação com uma parcela da militância, nas redes sociais:

@miltontemer O espírito vingativo contra o êxito de @fleming_al , em Maceió, só tem paralelo na alienação de uma juventude despolitizada contra o @randolfeap .

@randolfeap para @miltontemer e @fleiming_al “Querido Gonzaguinha nos explica essa despolitização “interna”. São tantas coisinhas miúdas, roendo, comendo, arrasando aos poucos com o nosso ideal”…

A militância jovem foi um grande diferencial na campanha do Marcelo Freixo. Jovens que, nas palavras de Freixo, “despertaram para a política”. Muitas críticas aos posicionamentos políticos do Senador Randolfe, do prefeito Clécio Luis, e do candidato Edmilson vinham dessa mesma militância. Mas não só. Outras foram formuladas por profissionais de várias áreas, alguns com pós-graduação acadêmica e muitas décadas de atuação política. O que diferia umas das outras era o tom mais ou menos efusivo dos argumentos, além da profundidade do discurso. Mas autores e autoras dessas posições divergentes nada tinham de despolitizados(as), muito ao contrário. Tampouco o conteúdo dessa argumentação pode ser classificado como “pequeno”, ou “miúdo”.

O que se percebe nas redes sociais é um campo de tensão criado a partir de uma interlocução limitada com a imensa maioria da militância, que questiona as práticas políticas adotadas em Macapá e Belém, apoiadas por parte da direção nacional do partido.

Internamente, há uma clara cisão entre os argumentos de parte do diretório nacional e aqueles originados por integrantes do PSOL e de diretórios no Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro, Distrito Federal ou Ceará, por exemplo. O próprio Freixo, ao ser questionado no tuíter sobre a aliança com o DEM, foi preciso: “sou contra”.

Luciana Genro, em carta ao jornalista Fernando Rodrigues, como contraponto à entrevista do prefeito Clécio ao programa Poder e Política, afirma:

“Não rompemos com o PT para fazer o mesmo caminho. Por isso não aceitaremos alianças indiscriminadas com os partidos do governo Dilma, que hoje são os gerentes dos negócios do capitalismo brasileiro. Também não apresentaremos inimigos de classe como grandes aliados, como fizeram Clécio e senador Randolfe ao receber o apoio do DEM, em Macapá.”

Na carta aberta do PSOL/Ceará, que circulou na mesma ocasião, lê-se:

O Partido Socialismo e Liberdade, seção cearense, por meio de sua Comissão Executiva Estadual, diante da irresponsável, suicida, absurda e injustificável política de alianças do PSOL em Macapá (…) se dirige ao conjunto do partido e à sociedade brasileira para repudiar, da forma mais veemente possível, a aliança realizada pela campanha do nosso  candidato à prefeito de Macapá, Clécio Luis, com o DEM e outros setores, candidatos, partidos conservadores e reacionários daquela capital, seu efeito devastador e desmoralizador para o nosso pequeno mas aguerrido e necessário partido(…)”

Por tuíter, o vereador @pedroruaspsol , de Porto Alegre, se manifesta: “ é um problema interno nunca visto no PSOL. A composição do governo vai levar chumbo grosso. Ganhar uma eleição com apoios ruins é muito pior do que perder com coerência dos apoios recebidos.”

Em meio a esse campo de tensão, uma resolução sobre o “balanço das eleições 2012 do PSOL” é divulgada. O título: “Eleições municipais- um PSOL mais forte e vitorioso”. O documento tem quarenta itens e está disponível na internet.  Embora sejam inegáveis as conquistas do PSOL nas eleições de 2012, sobretudo em campanhas como a do Marcelo Freixo, é improvável que um partido político se fortaleça por meio de uma cisão interna e distanciamento da militância. 

Ao fim da reunião do Diretório Nacional do PSOL, realizada no início de dezembro, duas posições foram divulgadas, que demonstram a divisão do partido: uma afirma que “não se pode transformar uma vitória em derrota”, no caso de Macapá. Outra critica veementemente os resultados e a própria condução desse Encontro.

O que deve ficar claro é que boa parte da militância, na qual me incluo, não quer que o PSOL reproduza a lógica política que tanto criticou, ao ser criado. Ao contrário, é importante que o partido questione essa lógica. E para questioná-la, são mais relevantes os processos de uma campanha como a do Freixo do que a chegada ao poder executivo.

A grande questão não é, portanto, chegar ao poder. É outra. O poder pelo poder foi o que seduziu o lulismo. Nós não precisamos disso. Precisamos mudar uma estrutura política apodrecida. O debate deveria ser em torno dos caminhos necessários para uma passagem entre uma política corrompida, que atende a interesses conservadores, e uma proposta socialista, ética, que inclua a sociedade desde a sua formulação.  Não há como alterar essa estrutura reproduzindo-a.

Mais uma vez, acho que devemos aprender com Chico de Oliveira:

“O PSOL nasceu para fazer uma crítica ao PT pela esquerda. A crítica pela direita já é feita continuamente. E ele não tem conseguido fazer. Porque o PSOL, de alguma maneira, pensa em refazer o caminho do PT. Esse caminho do PT, para usar um dos meus autores favoritos, Gabriel Garcia Marquez, ele é ‘irrepetível’, desde sempre e para sempre.

Penso que se o PSOL não ampliar seu foco de debates corre o risco de perder, ao mesmo tempo: a identidade, a credibilidade e boa parte da militância.

 

Vera Rodrigues

Rio de Janeiro, dezembro de 2012.

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À Folha de S.Paulo

Para entender o e-mail, é recomendável ler a tendenciosa e equivocada coluna do Janio de Freitas, na Folha de S. Paulo de hoje, sobre a eleição para a prefeitura do Rio. 

http://sergyovitro.blogspot.com.br/2012/09/janio-de-freitas-noticias-de-casa.html

É igualmente recomendável ler a coluna da Ombuds(wo)man, mas não localizei um link para postar aqui e a edição digital não permite colagens. 

Para  ombudsman@uol.com.br

Prezada Suzana,

Sou assinante da Folha de S.Paulo e resido no Rio de Janeiro. Ao ler a coluna do Janio de Freitas hoje, fiquei desagradavelmente surpresa.

Marcelo Freixo explicou em vários debates e na própria sabatina Folha/Uol (a partir dos 0:22 deste vídeo) as razões de sua viagem à Espanha. 

http://www.youtube.com/watch?v=bQgEDlX8FL4&feature=relmfu

"Desde 2009, venho recebendo uma série de ameaças oficiais. Todas chegavam através do disque denúncia, ou de informações do setor de inteligência da Secretaria de Segurança. Estão todas documentadas. São mais de trinta ameaças, de 2008 para cá. Sempre tive a proteção do Estado (nada demais, o necessário) posto que essas ameaças estão relacionadas à função pública que exerço. Em agosto de 2011, eles matam a juíza Patrícia Acioli, usando  armas e munição do Estado. Foi um recado para todo poder instituído: ‘matamos uma juíza’.  Um mês depois, as ameças sobre mim se intensificam numa velocidade incrível. Recebi sete ameças, em um mês. E ameças muito semelhantes às ameaças que a Patrícia recebia. Claramente eu era o segundo da lista. E isso não é dito por mim, mas por inúmeros delegados da área de inteligência da polícia, que recomendavam aumentar a segurança e os cuidados. Começo a receber informações da Secretaria de Segurança sobre as ameças, e não recebo nenhuma informação do que estava sendo feito sobre essas ameaças: nenhum plano, nada.  Era a minha vida que estava em jogo e a vida da minha família. Isso não é brincadeira. Não dá para politizar esse debate. Tem que tem respeito e seriedade para abordar esse tema. Aí eu faço um pedido para reforço da minha segurança. Não é atendido. Eu recebo um convite da Anistia Internacional para sair dali. Eu estava no meio de uma CPI de tráfico de armas e munições. Eu iria presidir uma CPI naquele momento. Não tinha nenhuma viagem marcada. Pelo contrário, tinha uma viagem de férias marcada depois da CPI, que nem era para a Europa. Não tinha nenhuma palestra marcada. E a Anistia Internacional - isso é de uma ignorância atroz - não marca palestras para ninguém. Não trabalha assim. A Anista me chama para que eu saísse do foco e pudesse denunciar o que estava acontecendo, porque pelos canais institucionais, a gente não estava conseguindo resolver. Fui e voltei já com passagem comprada, anteriormente. Em nenhum momento chamei isso de exílio. Quando voltei, abriu-se uma investigação para cada uma das denúncias, e reforçaram minha segurança.”

Quem acompanha a trajetória política de Marcelo Freixo, como eu, sabe perfeitamente que ele jamais faria um uso eleitoreiro de seu risco de morte. Como cidadã, acho improvável; como psicóloga, diria que essa seria uma estratégia suicida.

Dos fatos relatados em detalhes por Freixo à simplificação equivocada (ou de má fé)  feita por Janio de Freitas há uma imensa distância. Reduzir as bases da candidatura de Freixo a essa viagem ou ao “foi e voltou numa passada” chega a ser irresponsável. A versão da Anistia, publicada nos blogs governistas (“insuspeitos”, não?) até para proteger Freixo, fala em “palestras que foram antecipadas”. Se é assim, alguém perguntou à Anistia por que as antecipou? Foram de fato marcadas? 

Mas a intenção de desqualificar Freixo prossegue clara, no texto de Janio: “Daí em diante, com uma campanha normal (…) ele apoderou-se do segundo lugar”. A campanha do Freixo é tudo, menos “normal”, no sentido atribuído pelo texto. Tem mobilizado milhares de pessoas em discussões temáticas em universidades,  associações e outros espaços.  Uma reunião com jovens foi espontaneamente transformada em comício na Cinelândia, para abrigar os três mil jovens que compareceram ao evento. O Comício na Lapa reuniu mais de 10 mil pessoas, sob chuva. Os debates via twitcam reúnem mais de 2 mil pessoas, por semana. Nas redes sociais, o apoio a Freixo é constante. Moro no Rio há quinze anos, nunca tinha visto nada parecido. Freixo conseguiu resgatar a cidadania na política, incluiu a população no debate coletivo sobre a cidade. Isso tudo com um orçamento de aproximadamente 400 mil reais. Portanto, Freixo não se “apoderou do segundo lugar”. Ele conquistou esse lugar.

Além disso, Janio de Freitas sequer menciona os 25 milhões gastos por Paes, ou o fato de que ele tem altíssimo índice de rejeição. O jornal foi publicado no domingo. Pedir que ele citasse a denúncia da revista Veja (do sábado), sobre a compra do nanico  PTN pelo PMDB de Paes no Rio, por R$ 1 milhão, já seria demais. Esperar que ele lembrasse da violação de direitos humanos (amplamente denunciada), nos casos de remoção, seria insano; ou que ele registrasse que o governo de Paes presta serviços às empreiteiras, ao fim e ao cabo. 

Por fim, Suzana, ao ler a sua coluna, penso que ela não poderia ser mais oportuna. Afirmo: colunista não vota em branco.

Um abraço,

Vera Rodrigues

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Lapa50: um divisor de águas

Chovia forte no Rio. E mais de 10 mil pessoas se reuniram na Lapa, para apoiar Marcelo Freixo, na campanha mais importante do país. Afirmo isso com todas as letras, porque não tenho nenhuma dúvida de que essa campanha é um divisor de águas: sem verba, bravatas, falsas promessas, marketing; mas com muito engajamento. Pessoas reunidas com o desejo comum de resgate da cidadania para todos e todas. 

Cheguei uma hora antes do início. Vi pessoas de todas as idades a chegar de diversos bairros do Rio, e de fora também. Era possível ouvir algumas pessoas a relatar seu trajeto, e quantas horas demoraram para se locomover. Havia bandeiras de vários Partidos, ou melhor, com pessoas de vários Partidos a acreditar que a utopia é possível e que a esquerda não morreu: PT, PDT, PCB, além do PSOL, é claro. E não parava de chegar gente, lotando o espaço que tinha como cenário os Arcos da Lapa, um dos cartões postais do Rio, ontem palco dessa manifestação histórica.

Gente com flores, cores, esperança, felicidade. Uma energia que emocionava. “Carioca não sai na chuva nem para ir a um teatro” dizia Marcelo Yuka. Para quem não é do Rio, isso pode parecer estranho, mas ele tem razão. Só que os (as) cariocas saíram de casa. Muitos. Em plena sexta-feira à noite. E chovia torrencialmente, em alguns momentos. 

Chico Alencar escreveu uma carta linda, já que não pôde estar presente,  por conta de um problema cardíaco. (Força, Chico! Precisamos de você inteiro. Se cuida. Como diz o final da sua carta: “tudo, tudo, tudo vai dar pé: vai ter 2º turno.”)

O Comício foi dedicado ao Carlos Nelson Coutinho, cujo último ato público antes de nos deixar, nas palavras do Milton Temer, “foi gravar um vídeo de apoio ao Freixo”.

Caetano, que desde 1989 não participava de um evento político, marcou presença: “a candidatura de Freixo representa a dignificação da vida política brasileira. É um orgulho votar no mesmo candidato que vocês vão votar”. Randolfe Rodrigues trouxe sua empolgação lá do Amapá e o Ivan Valente, de São Paulo. Contundentes, definitivos.

A importância desse resgate da cidadania na política, do significado que teve esse Comício rapidamente ganhou repercussão nas redes sociais: 

Miles de personas recibieron la primavera bajo la lluvia con Freixo. El acto cerró con Pro dia nascer feliz (Cazuza).

Queria muito estar aí. Eu me emociono só com as imagens que chegam ao tuíter. A campanha do Freixo é nacional. Linda, vibrante.

Mateus Alves shared Marcelo Freixo's photo.

Que campanha. Não voto na cidade do Rio, mas estar lá no meio de tanta gente, mesmo com chuva, acreditando no mesmo ideal, me faz ter certeza que essa não é só a eleição mais importante da cidade do RJ em muito tempo, mas provavelmente a mais importante no país inteiro. É uma luta gigante e difícil, mas independente do que aconteça eu tenho certeza de que hoje vi uma parte muito importante da história da cidade do Rio de Janeiro e do país ser feita. #VaiTerSegundoTurno

Freixo sintetiza: “foi essa campanha que trouxe a juventude de volta à praça pública. Foi essa campanha que fez os jovens voltarem a acreditar na política”. Foi, sim. E não só eles. 

Vera Rodrigues

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Luz do Sol

 


Foi com a canção Luz do Sol que Caetano Veloso abriu seu show, em apoio à candidatura de Marcelo Freixo, que contou ainda com a presença do Chico Buarque e a participação do Trio Preto+1.  Escolha tão simbólica quanto emblemática, já que não era possível citar Freixo nominalmente, por impedimentos do Tribunal Regional Eleitoral.

Conheci Marcelo Freixo pessoalmente, no debate: Megaeventos e Violações dos Direitos Humanos, promovido pelo Instituto de Planejamento Urbano e Regional da UFRJ (IPPUR)- onde cursei parte do doutorado-, e pelo Comitê Popular Rio Copa e Olimpíadas.

O debate, que ocorreu em abril de 2012, lotou o auditório do IPPUR . O extenso dossiê, lançado na ocasião, denunciou: os mecanismos de transferência do patrimônio público para projetos de interesse do setor privado; os esquemas violentos de remoção forçada da população; a marginalização da pobreza; o profundo desrespeito aos direitos humanos de cidadãos e cidadãs do Rio de Janeiro, que têm sua cidadania negada; o legado da exclusão social como marca de uma administração que entende a cidade como um negócio, visando ao lucro em benefício de muito poucos. [i]

Nessa concepção de cidade, o poder sobre os processos de decisão pertence ao setor privado, sobretudo às empreiteiras. As mesmas que, atualmente, financiam a campanha de um bloco de vinte Partidos, cuja consequência nefasta é o loteamento da cidade para interesses bem distintos das prioridades da população.

A presença de Marcelo Freixo nesse debate - para além do conteúdo e da consistência de sua intervenção -, provocou um efeito inédito: a participação da Associação de Moradores da Maré a dialogar com a universidade.  Uma das representantes da Associação destacou: “estamos aqui ao lado da UFRJ e é a primeira vez que debatemos um tema de nosso interesse, nesse espaço. Geralmente, somos objeto de pesquisa”.  Claro sinal do que estaria por vir, ao longo da campanha.

Algumas semanas após essa discussão, ainda no período que antecedeu o lançamento oficial da candidatura, Marcelo Freixo participou do “Roda Viva”, programa semanal de entrevistas, da TV Cultura. Essa entrevista teve grande repercussão das ideias e da trajetória de Freixo, em âmbito nacional. Um dos temas centrais do programa foi crescimento considerável das milícias no Rio, e o que elas significam em termos de “crime organizado com projeto de poder e apodrecimento do poder público”.  Tema que Freixo conhece como poucos.  Mas ao falar sobre milícias, Freixo evidencia sua concepção de cidade e o fato de que cidadania, no Rio, tem CEP.

Foi significativa a repercussão dessa entrevista.   Durante o programa, Freixo ocupou os “Top Trends” do twitter Brasil, com diversos comentários que ecoavam suas ideias e propostas.

O antropólogo Eduardo Viveiros de Castro tuitou: “Freixo é perigoso. Faz a gente voltar a acreditar na política”.  Ele tinha razão.

Freixo tem a capacidade de mobilizar as pessoas, de incluí-las no debate sobre a cidade, como ficou evidente, desde o início da campanha. Seu discurso é coerente com a trajetória política que construiu. É consistente, honesto, ético. Em tempos de corrupção e peculato institucionalizados, isso não é pouco.

O lançamento oficial da candidatura ocorreu em julho, na Associação Brasileira de Imprensa (ABI). O auditório, com capacidade para mil pessoas, estava lotado. Havia muita gente em pé, e do lado de fora, a acompanhar o evento. A presença de Caetano Veloso, Wagner Moura, Chico Alencar, Randolfe Rodrigues, Milton Temer, entre outros, e da significativa militância de vários Partidos indicava a força que a campanha veio a adquirir.

Esta é uma campanha com pouquíssimos recursos financeiros, já que não aceita financiamento de empreiteiras, nem faz alianças espúrias para uma vitória a qualquer preço. Porém, o engajamento de milhares de pessoas na discussão de um projeto coletivo de cidade não tem preço. É um patrimônio que não se compra. O programa de governo é construído com a participação popular. “As propostas recebidas serão consideradas e, caso se adequem aos princípios que defendemos, serão imediatamente incorporadas, independente de onde venham”. [ii]

Em agosto, o que era para ser uma Assembleia de “Jovens com Freixo”, foi espontaneamente transformada em comício, transferida da ABI para a Cinelândia, para abrigar os três mil jovens que compareceram ao evento. Uma das manifestações mais bonitas da campanha.

Os debates que Freixo vem promovendo em todos os bairros do Rio, em universidades, associações e outros espaços também reúnem milhares de pessoas. É igualmente significativa a mobilização de boa parcela da militância, até então adormecida politicamente, nas redes sociais. Basta ver os diversos perfis do twitter, facebook, os vídeos produzidos espontaneamente e os debates com Freixo via twitcam, que têm contado c/ a participação de dois mil internautas, semanalmente.

Moro no Rio há quase quinze anos, e nunca tinha visto nada parecido. Não apenas o que diz respeito às manifestações diversas, mas sobretudo ao debate coletivo de um projeto de cidade. Freixo nos ensina, na prática, o que propôs Boaventura de Souza Santos: é possível democratizar a democracia.

Como escreveu Francisco Bosco, no jornal O Globo:

Se um homem como Freixo vence as eleições, fica provado que não somos obrigados a andar um passo para trás a fim de dar outro à frente; não somos obrigados a engolir os velhos crápulas da velha política em nome da governabilidade. Seria uma mudança, sem precedentes, da mentalidade política. O Rio tem a chance de iluminar o país. Não a desperdicemos. [iii]

Por todas essas razões e, sobretudo, para que o debate sobre a cidade possa ter continuidade, em larga escala, o Rio precisa de um segundo turno. Haverá um grande comício de campanha na Lapa, no dia 21 de setembro. No momento em que escrevo esse texto, quase oito mil pessoas já confirmaram presença, no facebook. Será outra marca importante de uma campanha histórica.

Debates semanais com Freixo via twitcam ocorrem aos domingos, às 19h. Nossa participação é fundamental.

A competição é muito desigual, o jogo é pesado. Mas como aprendemos com  Bertold Brecht: “Nada deve parecer natural. Nada deve parecer impossível de mudar”.

 

Vera Rodrigues

Psicóloga e Psicanalista.

Rio de Janeiro, setembro de 2012 .

 

 



[ii]  Link para o Programa de governo: http://www.marcelofreixo50.com.br/programa.html

[iii] Texto do Francisco Bosco, no jornal O Globo: http://oglobo.globo.com/cultura/freixo-5994508#ixzz25c7XDsuh