PSOL: qual o lugar da militância?
Partido significa tomar parte.
Quando você não toma parte, perde
toda a significação.
Chico de Oliveira
Uma conquista significativa para o PSOL, e para a política no Brasil, foi a campanha de Marcelo Freixo à prefeitura do Rio de Janeiro. Durante meses, milhares de pessoas estiveram mobilizadas em torno da discussão sobre o projeto que queremos para o Rio, o conceito de cidade e de cidadania.
O legado dessa campanha permanece. Ela nos ensinou que é possível fazer política, partidária inclusive, de forma participativa, ética, sem alianças espúrias ou financiamentos suspeitos. O resultado foi uma vitória política com poucos precedentes. As dezenas de comitês, muitos abertos espontaneamente, se tornaram grupos de discussão sobre a cidade, que continuarão seus debates. Essa foi uma das deliberações da plenária convocada por Freixo, logo após a eleição, em que compareceram cerca de seiscentas pessoas.
Parte da trajetória da campanha está registrada nesse Tumblr. O primeiro post, “Luz do Sol”, buscou registrar o percurso que ressignificou a história política recente. Foi publicado no blog do Freixo e na Revista Fórum, no blog do professor Idelber Avelar.
A carinhosa nota do Avelar também traduz o significado desse processo: “Fui convidado por Vera Rodrigues a dar uma declaração de apoio à candidatura de Marcelo Freixo logo depois de ter lido este texto escrito por ela e já publicado em seu Tumblr. Senti que não tinha nada a acrescentar a ele e pedi a Vera, então, a permissão para republicá-lo aqui e subscrevê-lo integralmente. Vera gentilmente acedeu ao meu convite. Esta republicação fica como meu tributo a uma das mais belas, inspiradoras e difíceis campanhas eleitorais dos últimos anos no Brasil.”
Os dois posts seguintes desse tumblr referem-se ao Comício do Freixo na Lapa, e à resposta a um artigo do jornalista Janio de Freitas, na Folha de São Paulo, nessa ordem.
Volto ao tema nesse momento, porque me parece pertinente para uma avaliação dos contrastes e contradições do PSOL, após uma campanha como a do Freixo, que resultou em quase um milhão de votos e numa oposição tão consistente quanto representativa, no Rio de Janeiro. E também após o PSOL ter sido eleito para prefeitura de uma capital: Macapá.
A discussão sobre as conquistas e os entraves dessa eleição no Rio ainda acontecia nas redes sociais e na plenária promovida por Freixo, quando houve a notícia que surpreendeu quase toda a militância: para o segundo turno, no Amapá, o atual prefeito Clécio Luís se aliava ao DEM e ao PTB, entre outros partidos, com apoio do Senador Randolfe Rodrigues. De Belém, chegavam fotos do candidato a prefeito Edmilson, com Dilma e Lula, e apoio do PT.
A mesma militância que teve plena liberdade de expressão e criação nas campanhas do PSOL no Rio em particular, e no Brasil, em geral, começou a manifestar nas redes surpresa e indignação.
Durante as campanhas, sobretudo no Rio, a militância foi ouvida. O programa de governo foi construído com a participação de vários grupos sociais. Sugestões foram incorporadas. Muitas ações da campanha ocorreram por iniciativa da militância, que se percebeu como coautora de todo o processo. Daí a vitória política no Rio, que não se encerra na eleição.
Contudo, as divergências dessa mesma militância em relação às alianças e aos rumos escolhidos pelos candidatos do PSOL no Amapá e em Belém, não tiveram a mesma receptividade. Ao contrário, ficaram sem eco, sem interlocução, com raras e louváveis exceções.
Num primeiro momento, houve a tentativa, por parte de alguns integrantes do diretório nacional, de afirmar que “não existiam alianças, mas sim apoios”. Porém, um vídeo com o Senador Randolfe Rodrigues, amplamente divulgado na internet, desmentiu essa versão: em 39 segundos, ele repetiu cinco vezes a palavra aliança, enaltecendo a importância do DEM, para governar.
Nessa ocasião, a resposta mais comum de dirigentes do PSOL era: “vamos deixar para discutir esse assunto na reunião do diretório nacional”. Reunião em que, como se sabe, há pouca ou nenhuma participação da militância a que me refiro.
As criticas foram contundentes. Para ilustrá-las, reproduzirei algumas, escritas no facebook do Milton Temer, -em quem votei para senador no penúltimo pleito -, que nesse episódio adotou postura contemporizadora. Temer é um dos dirigentes do PSOL.
João Pedro Accioly Teixeira: “O Amapá é a liquidação do PSOL. Sem nenhum sectarismo, é a degeneração da própria esquerda”.
Maria Inês Nascimento: “Como se derrota o capital fazendo aliança com seus representantes?”
Marcello Bertolo: “A maneira como Randolfe e Clécio construíram suas alianças no segundo turno, sem debater com o conjunto do partido, trouxe profundo e grave constrangimento para a militância.”
Diego Rodrigues: “Contraditoriamente, a primeira capital anunciada como dirigida pelo PSOL não tem a política que é amplamente majoritária entre os militantes do PSOL. Repudiamos esses partidos e repudiamos qualquer tipo de parceria com eles. O que deve ser feito deve ser discutido publicamente. Os debates devem ser públicos.”
Há vários outros comentários nessa mesma direção.
Ou seja, a militância é informada, por meio de jornais e das redes, que parte do PSOL contradizia seu próprio estatuto, além dos ideais que justificaram o engajamento das pessoas nas campanhas eleitorais e na construção do partido. Expressou sua discordância e repúdio às alianças em si e à ausência de debate.
Quem milita nas redes sociais conhece a importância da consistência de argumentação com adversários em particular, e com usuários das redes, em geral. Talvez, por essa razão, lê-se a manifestação de “profundo e grave constrangimento à militância”. Isso não é pouco.
Os riscos de uma semelhança com o PT são também temas recorrentes nos comentários. Mais do que simplesmente negá-los, convém tentar entender porque eles são apontados. Lembre-se que o PT mantém um discurso de esquerda, enquanto se alia à direita e adota a “realpolitik” como norte e prática.
Alguns dias após esse debate, no período que antecedeu a reunião do diretório nacional, o Senador Randolfe escreveu uma carta ao partido. Afirmou que recebeu “apoio do DEM”, mas que “ partidos conservadores não terão participação na composição do futuro governo de unidade popular”. Admitiu que “a engenharia política pudesse ter sido mais bem construída internamente ao partido, dialogando com instâncias nacionais e ouvindo ponderações”. Atribuiu essa ausência de diálogo à “empolgação pelos apoios recebidos”.
Sabe-se que o contexto político do Amapá inclui o crime organizado, que a luta é árdua, nada fácil, muito menos tranquila. Ocorre que este é um contexto de muitas cidades brasileiras, com diferentes nuances.
Novamente, a militância se manifestou nas redes sociais. Os comentários seguintes também foram copiados da página do facebook do Milton Temer, que divulgou a carta classificando-a como um “documento corajoso, compromisso de um governo de “unidade popular”.
Alidio da Luz: “ter consciência partidária é desrespeitar as instâncias e depois escrever carta dizendo que ‘tava empolgado’?”
Diego Rodrigues: “Não foi um apoio do DEM, mas aliança para governar com o candidato do partido”.
André Ferrarri: “Um cidadão que carrega o nome do PSOL sobe numa tribuna e anuncia uma aliança e governo em conjunto com o DEM, PTB e o resto da quadrilha. Fere até as resoluções propostas por sua própria corrente e aprovadas na direção do partido. Coloca esse povo no programa de TV do PSOL. Repete comportamento vergonhoso adotado em 2010, quando coordenou a campanha no segundo turno do PTB! (…) Randolfe não falou em meu nome e em nome do partido e, se depender de mim, não falará.”
O tom efusivo desses discursos é o mesmo utilizado durante as campanhas eleitorais, mas ali não era rechaçado. O que a militância assinala é a contradição entre o que o partido propôs desde a sua fundação e as práticas políticas dissonantes do discurso, sobretudo no Amapá e em Belém. O Amapá ficou mais em evidência, pelo fato de Clécio Luis ter sido eleito, em Macapá.
Esses comentários foram extraídos da página do Milton Temer porque ele é um dos que claramente manifestam posição de apoio às alianças que a militância critica. Além disso, pode-se não concordar com as posições de Temer, mas ele as expõe publicamente nas redes, o que é saudável para o debate já que, no mínimo, o enseja.
Além da discussão nas redes, pelo menos uma carta assinada por vários militantes foi remetida aos dirigentes do PSOL, com teor equivalente ao das críticas aqui relatadas.
No tuíter, as manifestações não foram diferentes. Mais concisas, porque escritas em cento e quarenta caracteres, porém não menos enfáticas.
A reação do senador Randolfe foi bloquear boa parte da militância que o criticava. Uma das pessoas bloqueadas, por exemplo, foi o professor de direito Saulo Salvador, que defende sua dissertação de Mestrado na Universidade de Lisboa e, de lá, participou da campanha do Freixo, via redes sociais. Esse exemplo é significativo, pois os tuites do professor Saulo continham argumentação semelhante às relatadas aqui.
O bloqueio também merece destaque pelo seu sentido simbólico, já que explicita a tentativa de impedir que posições divergentes sejam expressas. A militância assim entendida passa a ser algo que incomoda, atrapalha. Opta-se por não ler questionamentos. A atitude teve efeito oposto ao pretendido. As críticas se multiplicaram, também pela tentativa de obliterá-las.
Alguns tuítes do senador Randolfe, e do próprio Milton Temer ilustram o que se tornou público na relação com uma parcela da militância, nas redes sociais:
@miltontemer O espírito vingativo contra o êxito de @fleming_al , em Maceió, só tem paralelo na alienação de uma juventude despolitizada contra o @randolfeap .
@randolfeap para @miltontemer e @fleiming_al “Querido Gonzaguinha nos explica essa despolitização “interna”. São tantas coisinhas miúdas, roendo, comendo, arrasando aos poucos com o nosso ideal”…
A militância jovem foi um grande diferencial na campanha do Marcelo Freixo. Jovens que, nas palavras de Freixo, “despertaram para a política”. Muitas críticas aos posicionamentos políticos do Senador Randolfe, do prefeito Clécio Luis, e do candidato Edmilson vinham dessa mesma militância. Mas não só. Outras foram formuladas por profissionais de várias áreas, alguns com pós-graduação acadêmica e muitas décadas de atuação política. O que diferia umas das outras era o tom mais ou menos efusivo dos argumentos, além da profundidade do discurso. Mas autores e autoras dessas posições divergentes nada tinham de despolitizados(as), muito ao contrário. Tampouco o conteúdo dessa argumentação pode ser classificado como “pequeno”, ou “miúdo”.
O que se percebe nas redes sociais é um campo de tensão criado a partir de uma interlocução limitada com a imensa maioria da militância, que questiona as práticas políticas adotadas em Macapá e Belém, apoiadas por parte da direção nacional do partido.
Internamente, há uma clara cisão entre os argumentos de parte do diretório nacional e aqueles originados por integrantes do PSOL e de diretórios no Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro, Distrito Federal ou Ceará, por exemplo. O próprio Freixo, ao ser questionado no tuíter sobre a aliança com o DEM, foi preciso: “sou contra”.
Luciana Genro, em carta ao jornalista Fernando Rodrigues, como contraponto à entrevista do prefeito Clécio ao programa Poder e Política, afirma:
“Não rompemos com o PT para fazer o mesmo caminho. Por isso não aceitaremos alianças indiscriminadas com os partidos do governo Dilma, que hoje são os gerentes dos negócios do capitalismo brasileiro. Também não apresentaremos inimigos de classe como grandes aliados, como fizeram Clécio e senador Randolfe ao receber o apoio do DEM, em Macapá.”
Na carta aberta do PSOL/Ceará, que circulou na mesma ocasião, lê-se:
O Partido Socialismo e Liberdade, seção cearense, por meio de sua Comissão Executiva Estadual, diante da irresponsável, suicida, absurda e injustificável política de alianças do PSOL em Macapá (…) se dirige ao conjunto do partido e à sociedade brasileira para repudiar, da forma mais veemente possível, a aliança realizada pela campanha do nosso candidato à prefeito de Macapá, Clécio Luis, com o DEM e outros setores, candidatos, partidos conservadores e reacionários daquela capital, seu efeito devastador e desmoralizador para o nosso pequeno mas aguerrido e necessário partido(…)”
Por tuíter, o vereador @pedroruaspsol , de Porto Alegre, se manifesta: “ é um problema interno nunca visto no PSOL. A composição do governo vai levar chumbo grosso. Ganhar uma eleição com apoios ruins é muito pior do que perder com coerência dos apoios recebidos.”
Em meio a esse campo de tensão, uma resolução sobre o “balanço das eleições 2012 do PSOL” é divulgada. O título: “Eleições municipais- um PSOL mais forte e vitorioso”. O documento tem quarenta itens e está disponível na internet. Embora sejam inegáveis as conquistas do PSOL nas eleições de 2012, sobretudo em campanhas como a do Marcelo Freixo, é improvável que um partido político se fortaleça por meio de uma cisão interna e distanciamento da militância.
Ao fim da reunião do Diretório Nacional do PSOL, realizada no início de dezembro, duas posições foram divulgadas, que demonstram a divisão do partido: uma afirma que “não se pode transformar uma vitória em derrota”, no caso de Macapá. Outra critica veementemente os resultados e a própria condução desse Encontro.
O que deve ficar claro é que boa parte da militância, na qual me incluo, não quer que o PSOL reproduza a lógica política que tanto criticou, ao ser criado. Ao contrário, é importante que o partido questione essa lógica. E para questioná-la, são mais relevantes os processos de uma campanha como a do Freixo do que a chegada ao poder executivo.
A grande questão não é, portanto, chegar ao poder. É outra. O poder pelo poder foi o que seduziu o lulismo. Nós não precisamos disso. Precisamos mudar uma estrutura política apodrecida. O debate deveria ser em torno dos caminhos necessários para uma passagem entre uma política corrompida, que atende a interesses conservadores, e uma proposta socialista, ética, que inclua a sociedade desde a sua formulação. Não há como alterar essa estrutura reproduzindo-a.
Mais uma vez, acho que devemos aprender com Chico de Oliveira:
“O PSOL nasceu para fazer uma crítica ao PT pela esquerda. A crítica pela direita já é feita continuamente. E ele não tem conseguido fazer. Porque o PSOL, de alguma maneira, pensa em refazer o caminho do PT. Esse caminho do PT, para usar um dos meus autores favoritos, Gabriel Garcia Marquez, ele é ‘irrepetível’, desde sempre e para sempre.“
Penso que se o PSOL não ampliar seu foco de debates corre o risco de perder, ao mesmo tempo: a identidade, a credibilidade e boa parte da militância.
Vera Rodrigues
Rio de Janeiro, dezembro de 2012.